Ali, não há noite nem dia. No pequeno e protegido mundo representado pelo útero, sons ritmados se alternam numa apaziguante e quase imutável sequência de tons. Cheiros e sabores chegam atenuados. E qualquer movimento seu pode ser percebido pelo pequeno ser que se desenvolve dentro de você: seu filho.

Sim, é nesse ambiente, repleto de estímulos que os cinco sentidos humanos (olfato, paladar, tato, visão e audição) começam a ser exercitados. A princípio, as percepções do feto são sutis, mas já o ajudam a acumular informações sobre o meio em que vive e o ambiente externo. “Lentamente, à medida que os órgãos e o sistema neurológico se desenvolvem, a percepção sensorial e a capacidade de registrar informações também aumentam, até que, no nascimento, todos os sentidos estão prontos para entrar em ação, embora continuem precisando de estímulos para atingir a plenitude”, explica o médico obstetra Sang Cha, livre-docente da Universidade de São Paulo. Autor do livro Medicina Fetal (Ed. Atheneu), Sang Cha é um dos inúmeros estudiosos que vêm desvendando, para você e todas as mamães, o início dessa fascinante aventura que é a descoberta do mundo por um pequeno herói, o feto, quando ele tem apenas oito semanas de concepção e não mede ainda nem três centímetros.


 
AUDIÇÃO. Nada mais errado do que imaginar o útero como um templo silencioso. Ruídos não faltam ali, colocando o feto em contato com uma verdadeira orquestra. O compasso é marcado pelos incessantes batimentos cardíacos da gestante. Cada vez que você come, o bebê é brindado também com um “solo” do sistema digestivo. E, para afastar qualquer sombra de monotonia, não faltam vozes, buzinas e outros ruídos externos, principalmente os estridentes, capazes de atravessar a barreira formada em volta do feto pelo líquido amniótico e pelo ar. A diferença é que, dentro do útero, esses sons soam de modo distorcido: a criança os percebe como alguém que estivesse dentro de uma piscina.

Já na oitava semana, as orelhas se formaram e, na vigésima quarta, o aparelho auditivo está perfeitamente conectado ao sistema nervoso central. Essa conexão é importante, porque permite que os estímulos recebidos sejam memorizados. Com o tempo, essas conexões neuronais vão se consolidando e aumentam a capacidade de apreensão da criança – até que, a partir de 1 ou 2 anos, seja capaz de relacionar um som de buzina, por exemplo, com o carro que lhe deu origem. Ou seja, elas são responsáveis pela formação de importantes padrões mentais. Felizmente, a audição é um sentido privilegiado durante a vida intra-uterina, pois é o que capta maior número de estímulos. Experiências não faltam para provar isso. Diferentes estudos já constataram que, quando sons estridentes são produzidos perto da barriga da mãe ou ela fala em voz alta, os batimentos cardíacos do feto aumentam.

Acredita-se que essa reação seja sinal de que o cérebro captou o som e liberou neurotransmissores em resposta. Outra experiência interessante foi realizada com ovelhas, nos Estados Unidos. Por meio de sondas, os cientistas gravaram os sons que chegavam ao útero da ovelha. Mais tarde, quando os filhotes pareciam agitados, esses sons eram reproduzidos. Resultado: eles ficavam imediatamente calmos, da mesma forma que os bebês se acalmam quando a mãe os aconchega ao peito, de onde conseguem ouvir os familiares batimentos cardíacos dela.

TATO. Logo no primeiro trimestre da gestação, você poderá perceber que esse sentido de seu filho está superativo. Com apenas dez semanas, ele já se mexe, chuta e toca as paredes do útero. Também percebe quando você muda de posição e sente a pressão das “ondas” que se formam no líquido amniótico cada vez que você se movimenta. Tal percepção revela que suas articulações, músculos e nervos estão conectados ao cérebro, através do sistema nervoso central. Mas seu sistema tátil não amadureceu o suficiente para registrar dados mais “sofisticados”, como mudanças de temperatura, presença de umidade, graus de dureza ou a localização exata de um toque. Suas percepções são difusas, semelhantes às de um mergulhador vestido de neoprene. Só a partir da 18ª semana, esse sentido será mais ativamente estimulado, por contrações de pequena intensidade no útero.

VISÃO. Este é um dos sentidos de mais difícil estimulação dentro do útero. Na sétima semana, os olhos estão formados a surgir as pálpebras, que permanecerão fechadas até por volta da 30ª semana. Por isso, só nos estágios finais da gravidez, a criança percebe diferenças de luminosidade. Não distingue formas nem cores. Mas suas pupilas se contraem diante de focos de luminosidade muito intensa, como holofotes, por exemplo. Portanto, não faz diferença você dormir no claro ou no escuro: a luz produzida por lâmpadas comuns não atravessa a barreira formada pelas paredes abdominais e pelo líquido amniótico.

PALADAR. No líquido amniótico, o feto está literalmente mergulhado numa miscelânea de sabores naturalmente produzidos: o doce da glicose, o salgado do sódio e até o amargo da urina. E há pesquisas, na Universidade de Miami, Estados Unidos, com vídeos das diferentes relações dos fetos ao “provar” dessa caixa de sabores. Ainda não se sabe direito o quanto os alimentos ingeridos pela mãe são capazes de realçar determinados sabores, mas já se notou que, mesmo na vida intra-uterina, o gosto doce é o que conta com mais apreciadores. Em compensação, sabores ácidos e amargos são claramente rejeitados pelos bebês em gestação.

OLFATO. Claro que, enquanto o bebê estiver mergulhado no líquido amniótico, seu aparelho olfativo não pode ser plenamente usado. Apesar disso, já por volta do quarto mês de gestação, os receptores neuronais responsáveis pelo sentido do olfato estão formados. O feto não pode aspirar os cheiros, mas é capaz de senti-los e memorizá-los, por meio de processos e mecanismos bioquímicos ainda pouco conhecidos. Essa capacidade será muito importante logo no nascimento do bebê. É que, segundo estudiosos da Universidade do estado do Colorado, Estados Unidos, o útero é repleto de odores sutis que o feto memoriza. São esses cheiros que lhe permitem, imediatamente após o parto, reconhecer você: a mãe.

 

 

Referências: artigo retirado da revista Crescer.

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